Gosto de falar da Pós-Modernidade. Aliás, gosto mesmo da concepção de Lipovetsky – hipermodernidade. Talvez este termo seja mais apropriado para definir os tempos que vivemos. Para Gilles Lipovetsky vivemos tempos em que o superlativo da modernidade se acomoda promovendo uma “asfixia” de valores, relacionamentos, princípios, etc.
Este é o cenário no qual as igrejas vão se expandindo. Crescem a ritmo acelerado, mormente as neo-pentecostais, com suas promoções ao tom das expectativas: milagres imediatos, riqueza abundante, saída fácil para questões complexas – nada que uma campanha de sete semanas não resolva.
Mas o cenário esconde em seus bastidores cenas cruéis de pessoas sozinhas e aflitas, mascaradas da fantasia vitoriosa; esconde uma sociedade doente, cuja moral sofre golpes violentos diariamente. Uma sociedade sem rumo, um país perdido, uma igreja inoperante.
Inoperante, sim! Sua tarefa parece insólita e superficial, interessada apenas no discurso, nunca na vivência.
Sinto isso na pele. Recentemente atendi, numa mesma noite, um médico (antes de um culto) e um casal de mendigos (após o culto). Fiquei estupefato que ambos me procuraram com o mesmo dilema existencial, embora o primeiro percebesse salário mensal de cifras expressivas. O casal de mendigos – pasmem! – não queria dinheiro. Foi o mesmo que ouvi do médico assalariado e imerso em dívidas que não conseguia pagar.
O casal de mendigos pediu socorro, pois, viciado em craque, buscava recuperação. O homem já foi empresário – disse ele – e a mulher, musicista. Perderam tudo por causa das drogas.
O médico já pensou em suicídio. Asseverou que “nada dava certo para ele” e queria conhecer o Jesus pregado nas igrejas da modernidade. Não queria conhecer um Jesus manco, incapaz de fazer milagres! Ele queria o Jesus dos milagres, que lhe ajudasse de forma sobrenatural a pagar suas dívidas.
A ambos eu ofereci praticamente o mesmo remédio. A situação deles se igualou no contexto da alma. Ambos são vitimas desta hipermodernidade que exige que o ser seja apenas um vivente sem humanidade. Ambos precisavam de Deus em seus corações, e de alguém que lhes socorra, enxergando suas almas por entre as escamas da aflição.
A igreja peca aqui. Peca por avaliar as questões sociais apenas pelo prisma espiritual. Peca por não compreender que sua missão é incompleta se contemplar apenas o espiritual. Não foi assim na igreja primitiva.
O modelo bíblico de igreja parece mais apropriado para nossos dias, embora ele esteja preso na história. Lá, havia uma plena consciência do papel social, da importância de atender ao necessitado. A igreja primitiva – que avançou “sem impedimento algum” (Atos 28.31) – interferiu no plano político e social, mudou estruturas. Se acomodou, bem verdade, quando se associou ao Estado. Mas na Reforma, mais precisamente com Calvino, retomou sua missão diaconal no sentido mais pleno e interferente.
Uma vez mais a igreja se amoldou à forma do comodismo até chegar o Movimento Pentecostal. Movidos pelo Poder do Espírito, os crentes quiseram mudar o mundo focando apenas o espírito das pessoas. Deu certo, em certo sentido.
Mas não posso entender que seja apenas esta mudança interior que tiraria os mendigos da rua. Nem mesmo esta mentalidade livraria o médico de seu dilema. Gostamos de praticar a sugestão paulina de “entregar o corpo ao diabo” para livrar o espírito. Fazemos isso todos os dias, pois é mais cômodo.
A igreja na hipermodernidade precisa repensar sua missão. O crescimento exponencial se assemelha às promoções dos hipermercados. Enquanto há promoção, há crescimento. Tudo ao gosto do cliente consumista, que compra o que não precisa, com o dinheiro que não tem, para impressionar a quem não conhece.
Mas igreja não é negócio. Igreja é a agência de transformação social. E esta não poderá ser real se apenas maquiar o indivíduo cru. Tem que agir nas vacâncias do Estado sem se comprometer com ele. Tem que promover a vida como um todo, valorizando espírito, alma e corpo, holisticamente. Tem que se envolver com as questões sociais, sem eleger representantes. Tem que amar, sem hipocrisia. Tem que acolher, sem explorar. Tem que correr, não na velocidade estonteante dos tempos que nos sufocam. Tem que fazer alguma coisa que exceda a pregação idealista, para não se perder no seu discurso. Os dias são maus.