
O crescimento do número de evangélicos no Brasil é vertiginoso. Dizem que em 2020, metade da população brasileira será evangélica. Tal fato insta para uma preocupação: em que proporcionalidade o aumento de evangélicos no Brasil interfere na mudança social?
Decerto que a pregação evangélica versa pela mudança do comportamento de uma comunidade. Sobre o assunto, basta considerar o que dizem os sociólogos que pesquisam a mudança do comportamento social – interferente até nos maneirismos – provocada pela conversão ao Evangelho. No entanto, tal influência não parece acompanhar o ritmo do crescimento evangélico.
Há estados, como o Rio de Janeiro e Espírito Santo, que registram percentuais acima de 30% de evangélicos, porém permanecem seus índices de violência, tráfico de drogas e corrupção social sem alterações relevantes. Assim, torna-se importante reavaliar a ação evangélica como promotora de mudanças sociais.
O problema talvez resida nas motivações da igreja. Na era do hiperindividualismo, cada um se preocupa consigo. Não há espaço para se preocupar com o parente, que dirá do vizinho! Assim, nosso evangelicalismo vai se tornando socialmente inoperante.
Os templos evangélicos, em sua maioria, ficam fechados durante todo o dia. São guardados para alguma conferência, para as campanhas, para os cultos regulares duas, três vezes, por semana. O espaço ocioso poderia ser muito bem aproveitado se a liderança atual tivesse uma visão mais ampla de sua missão.
A missão evangélica apresentada desde os primórdios nunca se limitou às questões espirituais. Foi (e deve ir) além. A missão evangélica tem que compreender seu aspecto diaconal como foi instruído pelos reformadores: uma ação que também opera nas camadas sociais em favor da educação, da qualidade de vida e da paz.
Nossa indiferença quanto a estas questões põe em cheque a importância do crescimento exponencial do número de evangélicos: se esse crescimento é incapaz de agir em favor da transformação social, nossa missão está comprometida!
Hoje temos templos lotados e famílias destruídas; Cruzadas gigantescas e a violência imperando nos corredores sociais; gente pregando cura, prosperidade e libertação – “bênçãos” que contemplam apenas uma pequena e insignificante parcela dos que ouvem tal mensagem. E assim caminha a cristandade!
A igreja, mormente a liderança, deve se atentar para isto. Não temos o quadro atual por falta de opção, mas pela ausência de visão. Eis algumas alternativas:
OCUPAR OS TEMPLOS DURANTE O DIA COM ATIVIDADES EDUCACIONAIS – cursos profissionalizantes, palestras para desempregados, conferências sobre drogas, violência e família.
PROMOVER A AÇÃO SOCIAL POR MEIO DE PROGRAMAS ESPECÍFICOS – a igreja deve se comprometer socialmente (não apenas com cestas básicas) agindo nas vacâncias do Estado – a igreja tem mais penetração social do que o Estado e isso não deve ser neglicenciado.
CONSICENTIZAR OS CRENTES DO SEU PAPEL DE PROMOTOR DE MUDANÇAS – ninguém está onde está por acaso! Cada um deve ser agente missionário em sua camada social.
FOCAR AS PREGAÇÕES TAMBÉM NAS NECESSIDADES DA COMUNIDADE – sem apelar para a Teologia da Libertação, a igreja pode, sim, minimizar as carências da comunidade com programas que foquem tais carências.
COMPROMETER-SE A VIVER PLENAMENTE O EVANGELHO QUE PREGA – a igreja primitiva “contava com a simpatia de todo o povo” por conta de seu modus vivendi.
O evangelho não está desprovido destas verdades. A verdade do evangelho, a verdade que liberta, transforma, é a verdade que busca alcançar a todos sem discriminação. É a verdade que constrói pontes entre Deus e os homens – dando a estes o acesso às maravilhas da graça. A missão é desafiadora, mas há de ser a mais plena e relevante para trazer Cristo de volta.

Nenhum comentário:
Postar um comentário